Como realizar um teste às pulseiras do equilíbrio

Sábado, 26 de Novembro de 2011

Post publicado também no astroPT

Depois da notícia desta semana, em que a Power Balance foi mais uma vez multada, é caso para dizer que os iões negativos não fazem nada bem ao karma. Mas a Power Balance não foi a primeira nem há-de ser a última a vender bugigangas, a um preço inflacionado, que se propõem a melhorar a condição física e até a curar doenças crónicas. Trata-se na verdade de um fenómeno cíclico, pois quando a população já se esqueceu da fraude anterior, os vendedores da banha de cobra voltam com o mesmo produto, apenas com ligeiras alterações no aspecto e no marketing. Ainda se lembram das pulseiras Tucson que prometiam tirar todas as dores? Continuam a ser vendidas um pouco por todo o mundo, o design é que é mais variado.

391227_301418989880386_100000368623617_1076293_815319315_n

De acordo com a pseudociência devia funcionar.

Mas porque é que tanta gente caiu no conto do vigário?

Quem possui o mínimo de bases científicas, imediatamente chegou à conclusão de que o mecanismo de funcionamento anunciado pela empresa é um disparate pegado, um amontoado de expressões mais ou menos científicas que juntas não fazem qualquer sentido, mas que para os leigos parecem impressionantes e conferem credibilidade ao produto. Num post anterior eu até expliquei como inventar a nossa própria pseudociência de uma forma bastante semelhante.

Mas o que levou também muita gente a acreditar que as pulseiras funcionavam de verdade foi uma série de testes que se proponham a testar o equilíbrio, força e flexibilidade dos utilizadores. Quando o teste terminava, as pessoas facilmente ficavam convencidas de que a pulseira possuía de facto um efeito real sobre o corpo humano.

O que se passa aqui?

O problema começa logo com o controlo utilizado no teste, as pessoas pensam que é mais do que suficiente fazerem o teste sem a pulseira e depois com a pulseira, mas na realidade não é. Existem fenómenos importantes que vão afectar tanto a percepção do utilizador como de quem realiza o teste e que este controlo não consegue eliminar.

Relativamente ao utilizador, nunca se deve subestimar o poder da sugestão, o chamado efeito placebo. Existe uma distorção da percepção do utilizador, que resulta das suas expectativas em relação à pulseira. E nem é preciso acreditar genuinamente na pulseira, basta ter uma centelha de esperança de que possa funcionar.

Já quem realiza o teste pode, consciente ou inconscientemente, alterar a maneira como este é executado de forma a obter os resultados pretendidos, nomeadamente na força aplicada e no seu ângulo. Mesmo excluindo a hipótese de fraude que certamente ocorreu nalguns casos, a verdade é que toda a gente gosta de ver a sua teoria comprovada. Se não forem tomados alguns cuidados, isso acaba por provocar vieses que distorcem o resultado do teste.

É de salientar ainda que estes testes não são invenção da Power Balance, existem praticantes de uma terapia alternativa chamada Cinesiologia Aplicada que utilizam testes muito semelhantes. O resultado acaba por ser idêntico ao de quem experimenta a pulseira, os pacientes ficam impressionados com o teste e a única explicação que encontram é que o terapeuta fez realmente qualquer coisa ao seu corpo. Podem ver nos vídeos que se seguem a explicação do truque por detrás destes testes.

Então como deve ser efectuado o teste às pulseiras?

De uma forma geral:

  1. É necessário utilizar uma pulseira falsa como controlo, isto é, sem o holograma que alegadamente lhe confere as qualidades;
  2. A informação sobre quais são as pulseiras falsas e as pulseiras genuínas deve ser ocultada tanto dos utilizadores como de quem vai realizar o teste, é o chamado ensaio duplamente cego. Isto evita simultaneamente a fraude consciente e os vieses que mencionei anteriormente;
  3. As pulseiras devem ser distribuídas a um grupo de pessoas e quem vai realizar o teste tem de determinar quais possuem a pulseira genuína. Se o holograma tiver de facto algum efeito, então quem realiza o teste deverá ser capaz de identificar os utilizadores da pulseira genuína mais vezes do que o esperado pelo acaso.

Podem ver isto na prática no próximo vídeo. São utilizados cartões em vez de pulseiras mas o resultado é o mesmo, pois o fabricante afirma que basta ter o holograma perto do corpo para este funcionar.

Este procedimento pode ser facilmente adaptado para testar outras formas de pseudociência. E da próxima vez que aparecer uma pulseira, anel, ou pendente quântico já sabem como os testar devidamente. Não se deixem enganar pelos truques dos vendedores da banha de cobra.

Júlia Pinheiro, a Caça-Fantasmas

Sábado, 19 de Novembro de 2011

Post publicado também no astroPT

ghostbustersAcho que já faz parte do senso comum que os talk shows, não só em Portugal mas em todo o mundo, são um dos principais veículos de promoção de pseudociência e irracionalidade à disposição daqueles a que designamos carinhosamente por pseudos. Melhor do que os talk shows, só mesmo a internet. Contudo, consigo ainda ser surpreendido pela irresponsabilidade demonstrada na forma como alguns dos assuntos são tratados. Um destes casos é o de Cristina, uma mulher que está convencida de que tem a casa assombrada, e cuja história foi transmitida no programa “Querida Júlia” da SIC na quarta-feira passada. Segue-se o vídeo do programa.

Resumindo, temos uma mulher que:

  1. É profundamente supersticiosa, com uma tendência inata para encontrar padrões onde nenhum padrão existe, desde sonhos premonitórios até ao chilrear de pássaros;
  2. Recebeu uma série de narrativas sugestionáveis, desde os rituais de sacrífico animal supostamente efectuados na casa, passando pela doença misteriosa que afectou os antigos inquilinos, até às inúmeras imagens religiosas espalhadas pela casa e uma oração para “afastar espíritos”;
  3. Passa o dia em casa, propiciando-se assim a oportunidade para matutar continuamente no assunto, procurando sinais que confirmem a sua crença até nas coisas mais banais;
  4. Não dorme bem devido a pesadelos e porque se sente na obrigação de proteger os filhos. Sendo que a privação do sono é conhecida por provocar vários distúrbios ao nível cognitivo;
  5. Encontra-se visivelmente assustada e perturbada pelas coisas que tem vivenciado, sendo elas verdadeiras ou não.

Perante tudo isto o que é que o programa decide fazer? Chamar “especialistas” como a Team Anormal e uma espírita que em directo diagnosticaram mediunidade à Cristina, presenteando-nos assim, com o primeiro caso no mundo de mediunidade “cientificamente” demonstrada. Fascinante.

Isto faz-me lembrar um capítulo do livro “Um Mundo Infestado de Demónios”, onde Carl Sagan critica a prática de alguns terapeutas que têm por hábito estimular e aceitar como verdade as histórias de pacientes que acreditam ter sido raptados por extraterrestres. Isto pode até contribuir para o seu bem-estar imediato, mas promove também o seu afastamento da realidade, o que a longo prazo terá certamente consequências nefastas.

Ao apresentar apenas um lado da questão, o favorável à explicação sobrenatural, está-se a validar uma história que pode muito bem não passar de uma fantasia, iludindo os telespectadores mais impressionáveis, assim como, a contribuir para a degradação do estado psicológico da própria Cristina. Não deixa de ser irónico que as televisões apresentem este tipo de assuntos sob a bandeira da pluralidade de opiniões, mas não convidem especialistas que possam oferecer uma explicação mais simples e natural. Isto é feito com o claro intuito de não molestar as crenças de ninguém e perder audiências no processo, porque convenhamos, o sobrenatural será sempre mais sedutor enquanto a maior parte da população permanecer alheia à magia da realidade, que todos os dias e aos poucos é desvendada pela ciência.

A Team Anormal não faz ciência, faz pseudociência. Os caça-fantasmas ainda nem sequer provaram que fenómenos como os “cold spots” e “EVPs” são anómalos, quanto mais que só podem ser provocados por fantasmas. Estão por isso a pelo menos dois passos de fazer algo que se pareça remotamente com ciência. E espiritismo também não é ciência como uma convidada repetiu por diversas vezes, é um sistema de crenças, um dogma, que não tem nada a ver com o método científico. As pessoas têm direito à sua opinião, mas não à sua própria verdade.

O facto de alguns médiuns ou espíritas não cobrarem dinheiro demonstra que não são aldrabões, tudo bem. Mas não demonstra que consigam falar realmente com os mortos. Acreditar que o fazem não o torna verdade. Não existem só aldrabões e verdadeiros médiuns como foi dito no programa, isto é uma falsa dicotomia, nós somos extremamente fáceis de enganar, os ilusionistas e mentalistas ganham a vida assim. E a pessoa mais fácil de enganar de todas somos nós próprios. Há anos que James Randi testa pessoas que acreditam genuinamente ser médiuns, mas quando é feito um teste controlado e rigoroso vem-se a revelar que eles apenas se enganavam a si mesmos. O prémio de 1 milhão de dólares para quem conseguir provar qualquer afirmação do sobrenatural ou paranormal permanece por reclamar. É apenas questão dos “especialistas” que a “Querida Júlia” decidiu convidar inscreverem-se aqui e reclamarem o prémio.

Mais informação sobre a pseudociência dos caça-fantasmas aqui.

Equação de Flake

Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011

Post publicado também no astroPT

Já toda a gente ouviu falar da famosa equação de Drake, inventada pelo astrónomo Frank Drake, para estimar o número de civilizações extraterrestres possíveis na nossa galáxia. Agora chega-nos a equação de Flake do xkcd, que calcula o número de pessoas que pensam, erroneamente, ter tido um encontro com extraterrestres.

the_flake_equation2